sexta-feira, 28 de maio de 2021

A CULTURA BRASILEIRA E O NEGRO NA SOCIEDADE


Por Lívia Melo


A cultura retrata a diversidade de um povo formado por expressões, regras, normas, religiões, costumes, hábitos e crenças reproduzidas entre gerações por meio de construção de linguagem, portanto a partir da comunicação oral, escrita ou ainda pela imitação. A produção da linguagem atribui significados aos fatores raciais étnicos e comportamentais que unificam valores culturais dentro de uma sociedade. Na obra "Imagens de Controle" de Winnie Bueno é exibida a tradução sobre um dos conceitos de Patrícia Collins tratando - se da visibilidade do negro e as questões raciais. Discute assim, imagem representativas de mulheres negras, entre elas a da Mammys no clássico “E o Vento Levou” que reforça a construção da representatividade do negro na sociedade refletindo as condições que ele ocupa perante o sistema na atual situação racial brasileira. Nessa mesma linha Winnie Bueno destaca a ideia de (COLLINS, 2004, p.33) sobre a reprodução ideológica da mídia de massa na imagem de controle forjada dentro da própria mídia. Seja no jornalismo ou no entretenimento a cultura midiática é pensada de forma coletiva que sustenta a ideia de refletirmos sobre quem são as pessoas por traz das linhas editoriais, qual a ideologia incutida através da elaboração de um texto jornalístico e para qual tipo de público essa mensagem será direcionada, tais questionamentos são as construções das identidades sociais trabalhadas através das representações ideológicas do discurso midiático.



Historicamente a representação popular do homem e da mulher negra na sociedade brasileira vem estereotipada na manipulação ideológica induzida, coagida ou sugerida racista da elite proliferando o racismo.  O negro é privado de sua palavra, sua voz e colocado em desvantagem sem o seu direito participativo de cidadania e liberdade. A reprodução de mensagens subliminares através das novelas, programas de TV, música, internet e outros cria – se modelos de discursos ideológicos que geram arquétipos e atuam como controle social. Ao vermos Tia Anastácia na literatura de Monteiro Lobato, a “nega do cabelo duro que não gosta de pentear” num clássico da axé music, casa grande e senzala na história do Brasil, o termo pejorativo “macumbeiro” na religiosidade notamos os modelos discriminatórios e afirmativos da presença forte do racismo que simbolizam e atribuem sentidos de valores. Na luta pela igualdade temos a filha da ex – escrava e lavadeira Antonieta de Barros, nascida em 11 de julho de 1901 em Florianópolis, foi um marco nas lutas e conquistas da educação para todos, emancipação da mulher e valorização da cultura negra marcada pelo combate as questões raciais. Fundadora e diretora do Jornal A semana em épocas que a mulher não tinha livre expressão, contestou através de suas crônicas a condição feminina e o preconceito contrariando o discurso dos elitistas sobre o negro. Antonieta foi a primeira Deputada Estadual Negra na história do Brasil, suas ideias foram compiladas na obra Farrapos de Ideais (1937) retratando a alma feminina e salientando a imagem da mulher a uma "boneca - bibelot" de todos os tempos.  Ela sofreu um apagamento histórico que foi resgatado no final dos anos 90 pela ex- Senadora Ideli Salvatti. Juliana Domingos de Lima através do site UOL na coluna ECOA do dia 13 de março de 2021 mostra um pouco dessa trajetória. Outro exemplo de discriminação mais atual sofreu a atriz Cláudia Protásio ao filmar cenas de um filme no pátio do Comando Geral do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. 

Na reportagem do Fantástico de Giuliana Girardi vinculada ao canal do youtube no dia 01 de dezembro de 2019, Cacau chora ao relembrar os insultos sofridos após as gravações pelos membros da corporação que remetem aos crimes de racismo, gordofobia e homofobia. A reportagem mostra que na época do acontecimento com a atriz o jornalista Sérgio Nascimento é nomeado novo Presidente da Fundação Palmares. Sérgio polemiza sua chegada em destacar que a escravidão beneficia os descendentes de negros no Brasil, a atriz Claudia Protásio rebate no decorrer da entrevista questionando como o negro pode se sentir feliz sendo tratado de forma desumana, açoitado, descriminado e visto com indiferença até os dias atuais, reforçando que ela não se sente representada por ele.  A postura do jornalista levou a Diretora Executiva da Anistia Internacional Brasil Jurema Werneck se pronunciar e mostrar que pensar como Sérgio é não combater o racismo e deixar ele ser criado sem freio. A lei de crime ao racismo é a lei n° 7.716/89 aprovada em 1989, já a lei de igualdade racial esta prevista na lei 12.288 de 21 de julho de 2010 que impede a discriminação racial no país, com punição judicial e programas sociais de conscientização.  A visão massiva da mídia evidencia um critério do belo ser magro, olhos claros, cabelo liso desrespeitando as qualidades do negro. Uma das simbologias de representatividade da negritude esta na representação do cabelo Black Power, nas trancinhas, a cabeça raspada e os turbantes, formas impares de demonstrar a cultura africana, porém o olhar pejorativo sustenta o pensamento racista que segue dominante dentro da sociedade que se diz moderna, aderindo menor valor e agregando forma preconceituosa as qualidades ligadas ao negro. 

Mas como seria possível trabalhar o preconceito e combater a desigualdade entre negros e brancos atribuindo condições e oportunidades aos negros? São necessárias políticas públicas que divida as responsabilidades com o município, estado e governo. Produzir mais Trabalhos de valorização a cultura negra aderindo ações que diminuam a desigualdade social. Incentivar e apoiar programas que produzam projetos com um ciclo funcional e seqüencial. È necessário dar continuidade ao que se esta sendo colocado em prática assim é possível uma melhoria na valorização da cultura negra e o combate a desigualdade social no país. 

 REFERÊNCIAS:

 

BUENO, Winnie. Imagens de Controle: Um conceito do pensamento de Patrícia Hill Collins. Porto Alegre: Editora Zouk, 2020. 


Sites

https://www.uol.com.br/ecoa/stories/antonieta-de-barros-foi-a-primeira-mulher-negra-eleita-no-brasil/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonieta_de_Barros

https://youtu.be/fWt_4sPdYEM

https://globoplay.globo.com/v/8070302

https://player.mais.uol.com.br/?mediaId=15664579&type=video


Trabalho apresentado no curso de Graduação de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Faculdade 2 de Julho, disciplina Jornalismo e Cultura Brasileira, ministrada pela professora Helen Campos.


quarta-feira, 26 de maio de 2021

VISTA MINHA PELE - Qual o Brasil aparece aqui?

 Antes da critica sobre o filme é necessário entendermos o conceito básico do termo racismo. É uma forma de preconceito e discriminação através de sua raça. Muita gente conhece a sua origem através da discriminação que os portugueses fizeram com os povos africanos, tudo por conta da cor de sua pele (raça). Infelizmente, essa discriminação perdura até os dias atuais e esse é apenas um dos temas importantes que a curta metragem vista minha pele vai retratar, só que de uma forma um pouco diferente. 

A curta metragem tem 26 minutos e 45 segundos de duração, uma trilha sonora acompanhada pelo músico Bukasa Kabengele e como diretor Joel Zito Araujo. É uma historia que aborda uma inversão da realidade ou de papeis, basicamente os negros são opressores e os brancos que foram escravizados. É importante ressaltar que esse curta metragem é usada para métodos pedagógicos, tendo mais relação na área de humanas. A distopia apresentada não tem intenção de difamar ou desonrar toda uma linhagem de lutas, sofrimento e direito a liberdade dos povos africanos, e sim mostrar o ponto de vista de uma garota jovem, branca, suburbana e oprimida que queria ter todos os privilégios que na nossa realidade é costumeiro que teria. 

 A protagonista Maria que tem pele branca é apresentada como uma garota pobre e bolsista de um colégio particular, chegando aos meados das festas juninas ela deseja participar de uma competição cultural Miss festa Junina de sua escola, Entretanto, todo ano a Suely, a garota negra mais popular da escola costuma ganhar a competição e nenhuma branca jamais ousou desafia lá. O roteiro de vista minha pele mostrou ser impecável, pois em um curto período de tempo apresentou uma diversidade de tópicos importantíssimos que representam o nosso Brasil. A demonstração da competição entre as colegas torna-se um paralelo quando o roteirista aborda a primeira observação, a apropriação cultural de maneira naturalizada, representando que na nossa realidade é exatamente isso que acontece, pois a mídia há muito tempo adota elementos específicos para entendermos que aquilo é comum e divertido, nos dando também uma ideia de racismo estrutural, pois a protagonista está a todo momento usando tranças no cabelo e é perceptível a intenção que ela tem de se sentir parecida com seus colegas negros.  

Até os planos de cenário apresentados no curta tem uma significância, a casa de Maria e a de Laura sua amiga negra de classe alta, são totalmente diferentes, o diretor de fotografia utilizou a psicologia das cores para mostrar ao publico a diferença de realidade, a casa de Maria apresenta cores mais frias e um cenário muito úmido, já a casa de Laura tem cores mais quentes, coloridas,  um olhar de conforto, aconchego e felicidade transbordante. Isso ajudou muito a entendermos um pouco dessa diferença social. O Enquadramento de cada cena ajudou a nos aproximarmos dos sentimos negativos e positivos do personagem fazendo com que estejamos mais próximos dela. Toda vez que Maria se deslocava a pé da casa até a escola, o fotografo mostra com seus enquadramentos, o geral, médio e inteiro a percepção de Maria. Todos esses ângulos foram bem posicionados sem incomodar quando passava o take. Voltando para o roteiro outra cena bastante comum no Brasil é a evasão escolar e quem são os mais atingidos disso, os jovens sem muita opção preferem largar os estudos e trabalhar para ajudar a família e a sua própria sobrevivência. Estudar se torna um caminho mais distante para essas pessoas que no curta a grande maioria é a comunidade branca, que tem como pejorativo a dificuldade de estudar e assimilar conteúdo, já que eles têm uma vida sofrida. Saindo do paralelo essa é a vivencia da grande maioria da população negra no Brasil. 

Como nenhuma produção é perfeita, vista minha pele apresenta alguns erros que podem ser considerados horrendos a primeira observação, primeiramente com a atuação fraquíssima de alguns personagens, deixando o diálogo em certos momentos cansativos e previsíveis. Por ultimo, a distopia apresentada como dito no inicio da resenha o diretor não apresenta intenções de causar discórdia para o publico, tanto é que ele é livre de criticas nesse referencial, a sua abordagem não é mostrar o que aconteceria se os negros fossem os opressores e sim os fatores de desigualdade sentidos na pele e a sua consequência para a formação de uma minoria. Diante mão a esses erros a produção foi excelente na linguagem construída e de como a imagem foi abordada de forma coloquial, simplória, representativa e de fácil entendimento, já que a todo o momento entendemos que a trama da historia é mostrar o pensamento que cada classe social tem sobre seus “diferentes”. Foi cuidadosa na abordagem no tema que passa uma significância para o publico, tanto é que sua grande maioria são os jovens acadêmicos e os docentes.  

 

 


Resenha crítica produzida como atividade da disciplina Jornalismo e Cultura Brasileira ministrada pela prof. Helen Campos no semestre 2021.1.

Irmandade Vs Lupin - uma análise sobre criminalidades e sistemas punitivos e carcerários

 por Andreza souza 

A série ‘’irmandade’’ é dirigida por Pedro Morelli, trama ambientada nos anos 1990 apresenta Cristina (Naruna Costa) que, apesar de ser uma advogada bem-sucedida, nunca esqueceu o irmão Edson (Seu Jorge), preso há 20 anos, o qual também é líder da organização criminosa chamada Irmandade. Ao se infiltrar neste grupo para obter informações para a polícia, a personagem passa a se envolver cada vez mais com a entidade, questionando o sistema judicial e presidiário.

A escolha de Morelli foi assertiva quanto a protagonista, Hermila Guedes, brilha em suas aparições como mulher, bem-posicionada, presidente. Já seu Jorge e Cristina foi bem dividido entre eles o papel principal, sem roubar o papel de ninguém.

Apesar de ser uma trama dos anos de 1990, a personificação dos presídios apresentados é construída por meio do ótimo design de produção e grandes acontecimentos narrativos, podendo ser comparados com o cenário da atual realidade brasileira.




De forma muito inteligente, Pedro Morelli consegue criar uma atmosfera para a continuação, onde o espectador não queira continuar a série somente pelas pontas soltas, mas também para acompanhar os personagens e suas histórias.

Logo a série ‘’lupin’’ é baseada nos romances policiais de Maurice Leblanc contando com a responsabilidade de atualizar suas histórias para os dias atuais. a série conta com o destaque de Omar Sy como protagonista e grandes referências a sua obra de origem, sendo tanto uma homenagem ao “ladrão de casaca”, como também uma porta de entrada para a literatura francesa. Apesar de ser uma produção francesa, tipo releitura de livro, possui uma narrativa pouco intrigante para um suspense policial e terminar a temporada com diversas questões em aberto.

Lupin se tornou um gênio do crime na Paris do início do século 20. Tal personalidade inspira Assane Diop (Omar Sy), um homem que, 25 anos atrás, viu sua vida virar de cabeça para baixo com a morte de seu pai, acusado injustamente de um crime. Já atualmente, ele está em busca de vingança e, para isso, se inspira em Lupin para descobrir o que aconteceu com o pai.

As duas series são intrigantes, deixando o expectador com um gostinho de quero mais, ambas têm uma trama intrigante, tratando sobre assuntos relacionados ao racismo, sistema penitenciário e corrupção. levantando ainda mais o questionamento de que lugar de gente preta é na cadeia, e que por muitas das vezes tem um sistema corrupto, que é pago para omitir ou queimar provas que os inocentem.

Levando o expectador a se questionar, lugar de pessoas pretas é na cadeia ou em um leilão?   Será que o sistema é mesmo corrupto? Ainda existem pessoas sendo presas por um erro que não cometeu?


Resenha crítica produzida na disciplina - Jornalismo e Cultura Brasileira semestre 2021.1 ministrada pela prof. Helen Campos.

Negro Drama: Você deve estar pensando o que você tem a ver com isso?

 Negro Drama:

Você deve estar pensando o que você tem a ver com isso?

 

por Felipe Martins Farias

 

 

            Antes de iniciar esta análise, vou apontar de onde estou fazendo este texto: Eu, homem branco e de classe média, talvez seja uma das últimas (senão a última) pessoa apta a falar sobre o drama diário do negro brasileiro. Mas como a música questiona, o que eu devo ter a ver com isso? E partindo deste questionamento achei pertinente, já que envolve a matéria e os temas discutidos em sala, fazer uma análise de uma obra de um grupo que admiro e acompanho.

Identificar o cerne de um problema que moldou e molda um sistema que me beneficia diariamente em detrimento de tantos outros cidadãos é uma das chaves para mudança de atitude e postura diante do racismo sistêmico em busca de justiça social. E conforme a própria Winnie Bueno trouxe em seu trabalho “A justiça social só é possível se ninguém for deixado pra trás: se há subordinação de um grupo pelo outro não há justiça social”.

            O grupo Racionais MCs, fundado no final da década de 80 no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, foi e ainda segue sendo uma voz ativa da comunidade negra e periférica do país. Com quase 30 anos de história, o grupo denunciou o racismo (individual e sistêmico) sofrido pelo cidadão negro brasileiro em grandes obras como “Negro Drama”. 





            A música, faixa do disco “Nada como um dia após o outro dia” de 2002, é um relato poderoso da percepção do racismo sofrido na pele diariamente pela população negra. A canção aponta a cotidianidade do tema, e os traumas causados pela persistência de uma chaga tão profunda e que é a todo momento lembrada. O trauma que eu carrego/ Pra não ser mais um preto fodido”. Em outra passagem, os versos remontam a naturalização da condição marginalizada do negro no Brasil: Me ver pobre, preso ou morto já é cultural”. É notório também dentro do discurso da música a influência das ideias de Malcom X que contrastam com o mito da democracia racial que impera no Brasil: escancarando o abismo social inciado com a escravização de negros africanos e seu posterior envio ao Brasil colônica e perpetrado através de políticas de exclusão e extermínio Edi Rock brada: “Pra quem vive na guerra, a paz nunca existiu”

            Mano Brown em seus versos dentro da mesma música revela mais um arquétipo feminino forjado pelas relações raciais no Brasil: sua mãe, mulher negra, nordestina, que deve ser “forte” ao desbravar sozinha a metrópole: “Uma negra e uma criança nos braços/Solitária na floresta de concreto e aço [...] Família brasileira, dois contra o mundo/ Mãe solteira de um promissor vagabundo”. Até aqui podemos concatenar o pensamento de Winnie Bueno em análise da obra de Patrícia Hill Collins, pois conforme aduz em seu texto: “O empoderamento político de mulheres negras jamais será possível em um contexto em que os homens negros estejam sendo prejudicados [...] Da mesma forma não há possibilidade de autonomia para os homens negros se as mulheres negras não puderem exercer plenamente suas capacidades.”. Brown ainda desafia o ouvinte que desconhece sua realidade (ou que a conhece apenas através de suas músicas) a encará-la e manter uma atitude positiva como é esperado do negro Brasileiro: “Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz” e denuncia mais uma vez o espaço que é relegado à familias negras na cidade: “Eu recebi seu ticket, quer dizer kit / De esgoto a céu aberto e parede madeirite”.

            “Negro Drama”, assim como as demais músicas da extensa obra do grupo, faz um recorte frio e direto da realidade de famílias negras do Brasil, como o negro, impelido às margens da sociedade percebe em seu dia a dia as cicatrizes de um processo de mais de trezentos anos para o qual azinda não foi pensada uma solução concreta para além de medidas paliativas para suas consequências. E dentro deste processo a formação de arquétipos masculinos e femininos para tentar naturalizar a situação atual do cidadão negro, ao invés de assumir suas causas e iniciar um projeto efetivo de reparação histórica.





            E ao contrário do que diz Brown ao final da música, eu, branco, apenas li e assisti ao negro drama. Não conheço suas dores, tampouco seus frutos e a tentativa de compreender e escrever sobre dentro de um espaço que a disciplina me permite é uma das formas de se iniciar uma conscientização que fique para além de ideias e palavras. Mano brown relata que apesar de se falar e estudar sobre, nada substituirá a vivência na pele do racismo e de suas nefastas consequências para a história dos cidadãos e do país: Eu num li, eu não assisti/ Eu vivo o negro drama/ Eu sou o negro drama/ Eu sou o fruto do negro drama [...] Porque assim é que é, renascendo das cinzas / Firme e forte, guerreiro de fé /Vagabundo nato!”

 


Resenha crítica produzida na disciplina - Jornalismo e Cultura brasileira - profa. Helen Campos. Semestre 2021.1

            

Resenhas críticas analisam narrativas midiáticas numa perspectiva interseccional

 Alunos e alunas do componente curricular - Jornalismo e Cultura Brasileira - ministrada pela prof. Helen Campos no semestre 2021.1 produzem resenhas críticas que analisam diversas narrativas midiáticas observando em que medida marcadores sociais da diferença como raça, gênero e orientação sexual e classe estão articulando discursos que constroem produção de sentidos. Em seguida serão publicados esses textos. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 Resenha crítica - Filme KBELA

                                                                                                         por Paula Carolina Dantas

 

Filme KBELA é um curta-metragem, representado somente por mulheres negras, menos de 30 minutos de duração, conteúdo forte que envolve a cultura negra, religiosidade e as questões de enfrentamento diante de uma sociedade que impõe padrões de beleza.

É um filme de impacto social, que mostra dor, angustia e superação das mulheres negras.  Uma história de mulheres que são sufocadas por uma sociedade racista e seus padrões de beleza.
Inicialmente as cenas são de dor e sofrimento com imagens fortes de alisamento e pintura do corpo como representação de como são impostas a belezas de outras etnias, decorrendo de cenas de aceitação, fé e renascimento em si. Mostra a beleza do povo negro, sua cultura, suas roupas coloridas, turbantes, seus cantos como iorubá e religião.

É a representação de muitas mulheres que se reinventaram e se assumiram ao logo dos últimos anos, se livrando do que lhe era imposto e se amando como são.
 
KBELA nasceu a partir de um conto que ela escreveu sobre descobrir-se negra e “assumir” os fios crespos. O texto foi parar na publicação da Flupp (Feira Literária das Periferias) e, em seguida, foi encenado em algumas casas durante o Festival Home Theatre.

O curta metragem realizado de forma colaborativa, todas as pessoas envolvidas trabalharam sem receber dinheiro, pois a primeira versão do filme foi perdida em um assalto, com as gravações quase concluídas.
A primeira exibição pública do curta-metragem aconteceu no dia 12 de setembro de 2015, no Rio de Janeiro, no Cine Odeon por uma plateia de negros. O sucesso de público culminou no convite para a realização de mais três sessões com meia-entrada para todos. Desde então, KBELA circulou o Brasil e o mundo em exibições especiais.

A referência máxima do filme é o cineasta e ativista do movimento negro Zózimo Bulbul [1937-2013] e a linguagem que ele usou no filme Alma no olho, de 1974. Também teve influência de videoclipes da cantora de soul Laura Mvula, textos da ativista americana Bell Hooks, músicas da Nina Simone e do John Coltrane e a performance Bombril, da artista mineira Priscila Rezende.
 
KBELA é uma experiência audiovisual realizada de forma colaborativa por mulheres negras sobre mulheres negras. Com roteiro e direção de Yasmin Thayná, o filme recebeu o prêmio de Melhor Curta-metragem da Diáspora Africana da Academia Africana de Cinema (AMAA Awards 2017) e foi convidado para dezenas de festivais ao redor do mundo, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR, 2017) e FESPACO – Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, em Burkina Faso, o maior do continente africano. 
O processo de produção do filme é baseado nas redes de afeto e da internet – o elenco foi convocado nas redes sociais para garantir a diversidade de personagens que também colaboraram com suas histórias pessoais para o curta. Uma vaquinha online contou com a colaboração de 117 pessoas e arrecadou R$ 5.000 para custear as gravações do filme.

 

DIRETORA

Yasmin Thayná

 

Yasmin Thayná nasceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro e cresceu na Vila Iguaçuana, em Santa Rita. Filha de empregada doméstica, criada por seu pai Osmar (porteiro e pedreiro) e sua avó paterna, sempre estudou em escolas públicas e participou de projetos sócias em seu bairro. 

 Começou a rabiscar quando decidiu entrar para o grupo de jovens repórteres de sua cidade onde participou como repórter no projeto “memórias do cárcere”, realizado na 52ª DP e além de escrever para o blog CulturaNI. Aprendeu a pensar nos cineclubes e nas conferências de cultura que participou em Nova Iguaçu. Desde os 16 anos dirige, escreve e participa de produções de curta-metragem. Depois de ter inventado umas 3 vidas, Yasmin Thayná é diretora formada pela Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu e idealizadora da plataforma Afroflix.

 

Filmografia:

Rios, web série, direção, roteiro e montagem (2018)

Trilogia do olhar, videoarte, direção e montagem, 2018

Mulher do fim do mundo, direção e roteiro, videoclipe, 2018

Trajetória de um guerreiro, videoarte, direção e montagem, 2018

Guia da periferia afetiva, 2011, videoarte, direção

Lembranças de minha avó, 2011, documentário, direção e montagem

Barbeiragem, 2017, documentário, direção e roteiro

Vale longo, fashion film, direção e montagem (2017)

Nada está fora do lugar, experimental, direção e montagem (2017)

Batalhas, documentário, direção e roteiro (2016)

Afrotranscendence, web série documental, direção (2016)

Reconstrução, Videoarte, direção e montagem, (2012)

Frascos de perfume, Videoarte, direção e montagem (2009).

 

EQUIPE KBELA

Direção e Roteiro

Yasmin Thayná

 

Atriz (ordem alfabética)

Ana Beatriz Silva

Ana Magalhães

Carla Cris Campos

Dai Ramos

Dandara Raimundo

Isabél Zuaa

Lívia Laso

Marcelly Knowles Jackson

Monique Rocco

Maria Clara Araújo

Sara Hana

Taís de Amorim

Taís Espírito Santo

Thamyres Capela

 

Direção de Produção

Erika Candido

Monique Rocco

 

Colaboradora de roteiro

Erica Magni

 

Direção de Fotografia

Felipe Drehmer

 

Montagem

Rafael Todeschini

 

Direção de arte

Ana Almeida

 

Diretor(a) musical

Ana Beatriz Silva

Ana Magalhães

Dai Ramos

Monica Ávila

Thomas Harres

 

Direção de Comunicação

Silvana Bahia

Bruno F. Duarte

 

Figurino

Macela Domingos

Vinicius Couto

 

Som

Tiago Emanuel

 

Still

Alile Dara Onawale

 

Maquiagem

Camila de Alexandre

 

 

 

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

RESENHA CRÍTICA: KBela

 Por Eula Olivia Brito Santos

Obra dirigido por Yasmin Thayná, nascida no Rio de Janeiro, ainda jovem, aos seus 16 anos já dirigindo, escrevendo e participando de curtas-metragens, entrou para o grupo de jovens repórteres da Vila Iguaçuana (Santa Rita) participando do projeto “Memorias do Cárcere” na 52ª DP. Atualmente na PUC- Rio é estudante de comunicação social e ainda segue interessada sobre assuntos de impacto atual, como redes sociais, cinema, raça, gênero e comunicação. Além de trabalhar como pesquisadora no segmento de políticas públicas na Fundação Getúlio Vargas, foi colunista de jornais virtuais e blogs, fundando o projeto ‘Nova Iguaçu Eu Te Amo’ e integrou o projeto ‘Coletivo Nuvem Negra’, produzindo além de ‘Kbela’ em 2015, Yasmin Thayná também escreveu e dirigiu a obra “Batalhas” que aponta o curso do funk ao decorrer da história.

Sua produção foi completamente orçada pelas pessoas, por intermédio das redes sociais contou com a colaboração de 117 pessoas, que levantaram o valor de R$5.000,00 para os custos da gravação, ou seja, um financeiro relativamente limitado não foi o bastante para impedir a obra de ser feita ou premiada. Da mesma maneira a convocação do elenco se deu pelas redes sociais, para garantir a maior variedade de histórias e realidades de mulheres negras ara mulheres negras.

Ao analisar mais detalhadamente, notamos que o processo de escolhas e decisões tomadas para expressar, mover e impactar ao público, da maneira desejada e objetivada pela diretora foi minuciosamente montado, para deixar o curta com sensação de retratar uma realidade de modo mais verossível, os recursos usados não tentaram encobrir, mas revelar a realidade por traz do curta e por traz das câmeras, algo que o abuso de efeitos pode roubar e expressar apenas como uma ficção e não como a verdade que é contada, no caso a vida direta das mulheres que se disponibilizaram a participar do curta. Neste contexto, o fato de ter sido feito por meio de colaboração em conjunto, foi um fator que colaborou para retirar do curta a sensação de se assistir e substituiu pela sensação de inserção na realidade transmitida.

Em relação as características técnicas, a iluminação foi tratada para enfatizar alguns aspectos da cena, sendo também percebido o aproveito da luz do ambiente para contribuir com a naturalidade da cena retratada, em relação ao vestuário escolhido, noto que o figurino não foi utilizado ao aleatório, mas, foi escolhido para causar a impressão correta sobre a cena, como o saco na cabeça ou o vestido colorido, com faixas coloridas na cabeça, ou seja, são elementos visuais fundamentais para a compreensão do sentimento a ser passado, juntamente com a interpretação que particularmente foi de alta qualidade e eficácia, pois, percebe-se que não estavam apenas atuando e sim expressando algo já real em suas vidas, seus sentimentos e experiências reais, algo que não se aprende em escolas de teatro. 

Outro fator a ser discutido é o som de fundo, com quadros próximos nos permite praticamente estarmos juntos com as mulheres nas cenas, como cena em que se pintam de branco, oscilando com enquadramentos pouco mais distantes, como na cena em que está coberta pelo saco de lixo. A cena apresenta uma metáfora quanto ao estímulo racista do embraquecimento de corpos negros a partir do alisamento de seus cabelos por exemplo. 




Intercalando entre eventos rápidos e contínuos, como por exemplo, cenas da mulher aplicando produtos em seus cabelos são cenas rápidas, mas, constantes durante o curso do curta repetidas vezes de formas que não é finalizado o processo de cuidado de seus cabelos, aponta como os eventos acontecem rápidos na vida das pessoas, mas, certas eventualidades são constantes, como o racismo, preconceito e a violência vivenciada, sem tempo de recuperação, da mesma maneira o filme mostra as cenas diretamente, sem uso de efeitos especiais para camuflar, disfarçar, atenuar ou amenizar a passagem de informações.

Direção: Yasmin Thayná

Edição: Rafael Todeschini

Elenco: Monique Rocco, Isabél Zuaa, Maria Clara Araújo, MAIS

Produção: Monique Rocco, Erika Cândido

Link: https://www.youtube.com/watch?v=LGNIn5v-3cE

Assista ao filme completo aqui


A temática do negro em músicas de Gilberto Gil

 Por -  Pedro Augusto V. L. Soares A música enquanto discurso sonoro é produto de um contexto histórico, pois, o compositor capta através de...